Bebê reborn, live NPC e campeonato de farmar aura: estamos caminhando para a Idiocracia?

Está começando um novo espaço da Capivara Sensata. Um lugar para falar sobre nossa cidade, sobre a internet, sobre comportamento e sobre aquelas situações que parecem apenas engraçadas, mas que dizem muito sobre o mundo em que estamos vivendo.

E para começar, fica uma pergunta: Bebê reborn, live NPC, farmar aura e gente gritando “Six Seven”… o que uma coisa tem a ver com a outra?
Talvez a resposta seja simples: a busca constante por atenção. Hoje, não basta viver. É preciso ser visto. Não basta fazer alguma coisa. É preciso gravar. Não basta ter personalidade. É preciso demonstrar que está “farmando aura”.  E, quando nada disso chama atenção suficiente, sempre aparece alguém disposto a exagerar um pouco mais.

Eu considero isso uma idiotice

Antes que alguém se ofenda, é importante explicar em qual sentido estou usando essa palavra.

No dicionário, “idiotice” pode ser entendida como uma atitude marcada pela falta de inteligência, discernimento ou bom senso.

É exatamente disso que estou falando.

Não estou dizendo que toda pessoa que participa de uma brincadeira seja idiota. Também não estou dizendo que uma geração inteira seja incapaz.

Estou dizendo que determinados comportamentos são, sim, uma idiotice: atitudes sem propósito, sem bom senso e realizadas apenas para conseguir alguns segundos de atenção.

Agora já existem até campeonatos de “farmar aura”.

Pessoas se reúnem para disputar quem demonstra mais presença, criatividade ou capacidade de impressionar o público.

Elas fazem poses, dançam, improvisam, dão cambalhotas, jogam-se no chão, balançam as mãos e gritam:

“Six Seven!”

E o que significa “Six Seven”?

Praticamente nada.

A expressão viralizou justamente como uma piada coletiva sem um significado definido, geralmente acompanhada por movimentos das mãos.

Talvez seja exatamente isso que torne a situação tão simbólica.

Milhares de pessoas repetindo uma frase que não significa nada, fazendo gestos porque todos os outros também estão fazendo e disputando atenção para provar que possuem uma suposta “aura”.

O problema não é brincar

Brincar faz parte da vida.

Toda geração teve suas gírias, suas modas, suas músicas questionáveis e suas brincadeiras sem sentido.

O problema começa quando a brincadeira deixa de ser apenas diversão e passa a representar uma necessidade constante de aprovação.

Quando a pessoa precisa se expor, se humilhar ou se transformar em um personagem para ser percebida.

Nas lives NPC, por exemplo, seres humanos imitam personagens automáticos de videogame.

Eles repetem movimentos e frases sempre que recebem presentes virtuais dos espectadores.

A pessoa deixa de agir espontaneamente e passa a funcionar como um personagem programado: alguém paga, ela obedece e repete.

Não importa se o comportamento é ridículo.

Importa que alguém esteja assistindo.

Com os bebês reborn acontece algo semelhante quando aquilo que poderia ser apenas artesanato, coleção, brincadeira ou recurso terapêutico é transformado em espetáculo nas redes sociais.

O problema não está na boneca.

Está na criação de histórias cada vez mais exageradas e polêmicas para gerar comentários, indignação e visualizações.

No fundo, a lógica é sempre a mesma:

Atenção virou moeda.

E, nessa economia, muitas vezes não vence quem possui algo importante para dizer.

Vence quem está disposto a fazer o maior absurdo para impedir que o público deslize o dedo para o próximo vídeo.

O filme que parece cada vez menos exagerado

Em 2006, foi lançado o filme “Idiocracia”.

Na história, um homem considerado absolutamente comum participa de um experimento e acorda 500 anos no futuro.

Ele encontra uma sociedade dominada pelo consumismo, pela publicidade, pelo entretenimento vazio e pelo desprezo ao conhecimento.

O filme é uma sátira.

Não é uma previsão científica e muito menos um documentário sobre o futuro.

Mas a provocação continua atual.

Em “Idiocracia”, as pessoas não conseguem resolver problemas básicos porque perderam a capacidade de pensar criticamente.

Tudo precisa ser barulhento, rápido, vulgar e fácil de consumir.

Qualquer coisa que exija atenção, leitura ou raciocínio é ignorada.

O entretenimento deixa de ser apenas uma forma de diversão e passa a ocupar tudo, substituindo o próprio pensamento.

E é impossível não perceber alguma semelhança com o presente.

Não porque as pessoas estejam necessariamente ficando menos inteligentes, mas porque estamos construindo um sistema que recompensa cada vez menos a inteligência.

Um conteúdo bem pesquisado pode levar dias para ser produzido e alcançar poucas pessoas.

Enquanto isso, alguém se joga no chão, balança as mãos, grita “Six Seven” e recebe milhões de visualizações.

O algoritmo não pergunta:

Isso é verdadeiro?

Isso é útil?

Isso possui algum significado?

Ele pergunta apenas:

Isso faz as pessoas continuarem olhando para a tela?

Quem alimenta a idiotice?

É fácil colocar toda a culpa em quem produz esses conteúdos.

Mas existe outra parte dessa história.

Quem assiste também participa.

Quem comenta indignado aumenta o alcance.

Quem compartilha apenas para zombar ajuda o vídeo a chegar a mais pessoas.

Quem reclama da idiotice, mas passa horas consumindo a mesma idiotice, continua alimentando o sistema.

As plataformas aprenderam que indignação, vergonha alheia e absurdo prendem mais atenção do que reflexão.

Talvez a verdadeira “Idiocracia” não seja uma sociedade onde ninguém possui inteligência.

Talvez seja uma sociedade em que pessoas inteligentes utilizam toda a sua capacidade para produzir, distribuir e monetizar conteúdos cada vez mais vazios.

Farmar aura ou cultivar alguma coisa de verdade?

A Capivara Sensata também faz humor.

Também cria memes, brincadeiras e vídeos absurdos.

Mas humor não precisa ser vazio.

O humor pode divertir e, ao mesmo tempo, provocar uma pergunta.

Pode fazer alguém rir e, logo depois, perceber que existe algo errado por trás daquela situação.

Por isso fizemos uma capivara ensinando a usar a enxada Six e a enxada Seven.

Se é para farmar alguma coisa, que pelo menos seja mandioca.

Se é para abrir alguma coisa, que seja uma valeta.

Porque uma enxada utilizada no campo produz mais resultado do que muita gente balançando as mãos na internet para conquistar uma “aura” que desaparecerá assim que surgir a próxima tendência.

Este site será um espaço para observar nossa cidade, nossa sociedade e o estranho mundo da internet com humor, responsabilidade e senso crítico.

Porque, de vez em quando, precisamos parar de farmar aura e começar a cultivar consciência.

Bem-vindo ao site da Capivara Sensata.

Se fizer, a gente mostra.

Se não fizer, a gente cobra.

A Capivara está de olho